Razões ou vítima?

Esse texto agora, vai se basear em algo que vi. Então se não deseja spoilers, pare aqui, por favor. Assista 13 Reasons Why.

A série é sobre um assunto pesado: suicídio. Fala sobre Hannah Baker, que após 13 razões, tira sua própria vida. Hannah sofreu bullying na escola onde estudava, o que é um assunto comum para vários. Quantos de nós não sofremos do mesmo mal? Ou causamos este mal? Ou pior, apenas assistimos, sem nada dizer ou fazer?

Quantas vezes em nossa vida desejamos desaparecer? Quantas vezes ouvimos pessoas que conhecemos, amigos dizerem isso e não fazemos nada? Existe um ditado falando que sentimos a perda, porque é quando se perde que damos o devido valor. Mas e quando se perde a vida, quando é que vamos dar valor? Quantas vezes em nossa vida não fomos alvos de comentários desnecessários e maldosos? Quantas vezes não apontamos o dedo para alguém e falamos algo que não deveria ser dito? Quantas vezes rimos de uma piada, que na verdade, era um insulto e agressão psicológica? Quantas vezes não vimos um monte de merda, sim merda, acontecer por aí e não agimos?

Quando comecei a assistir, eu sabia que mexeria comigo. Devido a um passado que carrega muitas coisas em comum. Talvez você diga que é besteira, mas o bullying, a agressão psicológica, assim como o assédio são reais. Eu sei que não é algo fácil, porque eu passei por isso. Sempre acreditei que colocar para fora, seja em escrita ou em fala, sempre ajudaria. E sempre me ajudou a sobreviver.

Hannah era uma garota apaixonada, romântica, como qualquer pessoa que eu conheça. Ela era feliz, comprometida com os estudos, gostava de festas e curtir como os amigos. Uma garota normal, cheia de vida. Até que vários acontecimentos, a levaram a tirar a própria vida. Hannah foi tachada como vagabunda pelo amigo do rapaz que lhe deu seu primeiro beijo. Após isso, ela sofreu assédio sexual, como apertarem sua bunda e falarem de seu corpo. Ela também foi tachada como uma garota “fácil”, que iria para cama com qualquer um. Sua sexualidade foi exposta para todo colégio, sua vida estava exposta. E como se não bastasse, Hannah Baker foi estuprada. E como ela mesmo disse, foi quando destruíram sua alma. A partir deste momento, ela não sentia mais nada, ela não se importava com nada. Então ela se calou, se afastou de tudo e todos. Ela não deixou bilhetes, apenas cortou seus pulsos e sangrou até a morte. Essa foi a breve vida e morte de Hannah Becker no segundo ano do ensino médio em Liberty High.

De todas as 13 razões, na minha opinião, Clay Jenses foi a pior. Ele amou Hannah verdadeiramente, mas ele foi omisso. Ele viu tudo acontecer, as piadas, os insultos e mesmo assim não agiu. Clay nunca disse à Hannah o quanto ele a amava, e por mais que o amor não seja a cura, isso poderia ter salvo ela. Mas realmente nunca saberíamos, porque agora não é possível voltar no tempo. As outras razões apenas foram más, incompreensíveis e puramente instintivos. Fizeram o que estava ao seu alcance para tirar o seu da reta. Eles a abandonaram, cada um em seu próprio jeito. Eles a deixaram sozinha em seu caminho. E foi assim que ela morreu. Sozinha.

Quando eu era adolescente, eu sofri bullying. Nunca me encaixei na escola. Alguns anos do meu ensino fundamental e médio, foram um verdadeiro inferno. Fui chamada de vadia, mentirosa, esquisita, gorda, estranha, drogada e lésbica, entre outras coisas como entrar em uma briga na quarta série. Mas graças a minha amiga, eu sobrevivi. E nunca festejei tanto na formatura.

Quando me formei, era hora de entrar para uma faculdade e então escolhi Psicologia. Eu queria entender os mistérios da mente e entender melhor algumas situações da vida. Eu entrei no inverno. Algumas semanas antes da primavera, meu tio faleceu. Esse foi meu baque emocional. Toda minha estrutura emocional desabou naquele momento. Eu consegui seguir a faculdade até o terceiro semestre. Notas começaram a cair e o nível de álcool em meu sangue a subir. Eu acabei por perder minha bolsa e tive que deixar a faculdade. Eu chorei por semanas. Porque aquilo era o que eu amava e eu havia simplesmente perdido? O que eu faria?

Eu entrei em depressão, me alimentava mal, mal saía de casa ou me encontrava com meus amigos. Quando decidi sair pela primeira vez, já havia se passado cerca de uns cinco meses. Era show da banda dos meus amigos. No fim do show, pedi carona aos meus amigos. Minha melhor amiga e um amigo foram na frente, enquanto eu e outro amigo, fomos no banco de trás. De repente, algo em mim mudou, eu me sentia horrível e queria que tudo aquilo parasse naquele exato momento. Então, eu gritei para parar e o carro parou. Estávamos ao lado da canaleta de ônibus. Eu parei ali, no paralelepípedo, olhando para meus pés. Eu não ouvia meus amigos me chamando. Apenas ouvi o pneu do carro cantar e então pensei: eles foram embora, me deixaram aqui, me abandonaram. Então eu quis, naquele exato momento, que tudo acabasse. Tudo silenciou por um minuto e eu não ouvi nada além do silêncio. Então eu dei um passo para dentro da canaleta e então outro. Eu vi a luz do ônibus se aproximando. E então eu senti uma mão em meu braço e fui puxada para a calçada. Meus amigos estavam lá e eles salvaram minha vida. Se eles não estivessem, você não estaria lendo isso. Então, eu sou grata por ter os amigos que tenho. Após isso, eu iniciei a terapia e hoje, eu já não penso mais em suicídio.

Eu tive ajuda, apoio, fui levada ao psicólogo. Mas quantas pessoas não tem a mesma sorte? O mesmo suporte? Ou se quer, amigos? Nenhum dos meus amigos poderia ter previsto o que eu estava para fazer, porque eu não falava nada para ninguém. Mas quando passamos por algo assim, precisamos compartilhar o que passamos e ajudar o próximo como pudermos. Então sim, essa é minha experiência. Eu minha vida eu fui Hannah Baker e conheço várias que foram as razões, até mesmo, minhas razões. Mas eu tive ajuda a tempo, tive ouvidos que me ouviram e mãos que me seguraram, além de ombros para chorar. E após assistir 13 Reasons Why eu só consigo refletir em minha vida e tudo o que passei. O que já fiz, não fiz, disse ou não disse.

Isso me fez refletir em uma única coisa: muitas vezes nós nos sentimos como Hannah, mas quantas vezes fomos as 13 razões?

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